O TANGO

Começamos dizendo que o tango, apesar de sido, em sua origem, forma de expressão da canalha, não foi uma expressão “canalha”. Pode-se dizer que o tango é “una flor nascida en el fango”: alguém a tirou de lá, a cultivou e ainda a cultiva, descobrindo sempre novas formas de expressão.

 

É isso que justifica que nos ocupemos do tango com esses estudos, esse longo processo de forjamento, purificação e enaltecimento que começa em 1890, que não está terminado e não se concluirá nunca. Esse processo é tão intenso que mudou a forma do tango, o que era um jogo evasivo se fez música introspectiva e de exame de consciência, mas sem perder a essência. O sentimental substituiu o agressivo, o nostálgico o lúdico, a lentidão reflexiva a velocidade fugidia, mas está sempre presente o indefinível, o imponderável onde o portenho se vê como em um espelho. 

E com isso começamos...

Luciano e Patricia-3512b.jpg

Para se conhecer o outro, é necessário poder colocar-se em seu lugar. Para entender e poder formar uma opinião sobre uma cultura, bem como encontrar um espaço para ela em nossas vidas, como no caso dos amantes do tango argentino, faz-se imprescindível conhecer um pouco mais a fundo as correntes construtoras deste movimento. Isso significa visitar Buenos Aires e seus cafés, caminhar por suas ruas e avenidas, aprender o seu idioma e suas gírias, os agentes e artistas que carregam esta bandeira, mas também, as redes informais de troca de informações e conhecimento, intercâmbio este que, em sua maioria, se deu entre pessoas não conhecidas pelo público geral.

shutterstock_1414370048-1200x675.jpg

Não é fácil estabelecer com precisão a origem do tango, as peças do quebra-cabeça são muitas e várias foram extraviadas. Contudo existem historiadores que, com paciência e perseverança, vem descobrindo as peças ocultas e pesquisadores que tratam de reconstruir essa história. De modo que, apesar desses vazios históricos, pode-se ter uma ideia bastante aproximada de como foram se desenvolvendo as coisas.

Relata-se que por volta de 1877 as sociedades candomberas, constituídas por homens e mulheres negras, haviam se estabelecido no bairro del Mondongo (parte ocidental do bairro de Montserrat (calle San José, Independencia, Entre Ríos, Chile e México). É sabido que os negros estavam reunidos, quase todos, em sociedades, a maioria de caráter mutualista (protocooperação). A principal finalidade dessas associações era coletar fundos que se destinavam a libertação dos seus irmãos de raça.

Ali celebravam seus carnavais, suas festas, durante as quais realizavam coletas e rifas para a obtenção de dinheiro. Essas festas eram, em verdade, bailes, uma espécie de rituais selvagens ao som de instrumentos primitivos, dançavam horas e horas danças quase sempre indecentes, devassas, o que dava motivo para muitas reclamações.

Chegada a época dos seus carnavais saíam às ruas dançando horas e horas ao som dos seus candombes e masacayas (espécie de chocalho com cabo). As disputas entre as referidas sociedades deram margem à enfurecidas e sangrentas brigas pela supremacia em plena via pública. A repetição dessas richas de rua ensejou, por parte da autoridade local, o fechamento dos candombes e a dissolução das sociedades.

CORRALES%20VIEJOS%20(PARQUE%20PATR%C3%8D

Com isso, essas associações foram obrigadas a formar centros de baile (em galpões) onde nasceu o nosso conhecido tango. A dança era muito diferente da que conhecemos hoje. Esse modo solto de dançar foi aprendido pelos compadritos e levado para o bairro dos “corrales”, onde já funcionavam os “peringundines” com a tradicional milonga.

Para situá-los, o bairro dos “Corrales Viejos” era o atual Parque Patricios. Os primeiros habitantes deste bairro foram uma conseqüência imediata de Puente (uma ponte que cruza o rio Riachuelo e liga o bairro de Nueva Pompeya a Buenos Aires), o que permitia o trânsito diário das tropas de vaqueiros a caminho de Mataderos, cujas instalações ocupavam grande parte do então citado bairro de Parque Patricios.

 

O bairro dos Corrales começou a ser povoado no fim de 1867 quando essas tropas passaram a ocupar os galpões e localidades de Caseros y Monteagudo e não mais necessitavam atravessar a ponte.

MILONGA%20ORILLA%20(PAYADOR)_edited.jpg

Em resumo, ao se proibir o “candombe callejero”, aqueles negros foram para locais fechados, onde ocorre a transformção do candombe em Baile de “pareja suelta” que chamam de tango. O “compadrito” freqüentava esses centros de dança, teoricamente exclusivo da comunidade negra, e começa a imitar o seu modo de dançar. Em seguida leva essa maneira de se mover para os seus próprios lugares de diversão. Essa maneira de dançar dos negros, imitada pelos brancos, seria o tango inicial, primitivo.

COMPADRITO%201_edited.jpg
ACADEMIAS%2C%20CAF%C3%89S%20E%20PERINGUN
COMPADRITO%201%20(2)_edited.jpg
COMPADRITO%202%20(EL%20HOMBRE%20DE%20LA%