Luciano Bastos por Luciano Bastos

Atualizado: Mai 27

Como contar uma história na qual eu sou o personagem principal? Como falar de mim mesmo, eu que sempre deixei que falassem por mim?

Costumamos estar muito próximos de nós mesmos, e deste lugar é difícil conseguir ver a nossa própria vida com o distanciamento necessário e as emoções apaziguadas. No entanto, aos 41 anos vividos e muitas lições aprendidas, assumo o risco.


A história que vou contar hoje começou há muitos anos, exatamente no dia 02 de fevereiro de 1980, em Salvador, na praia do Rio Vermelho. Eram 12h40 quando, ao som da cantoria do dr. Jorge Bispo, do foguetório e da batucada na praia em homenagem a Iemanjá, cheguei ao mundo, quer dizer, estreei porque baiano não nasce, estreia!


Mas apesar da festa e da alegria que envolveu a minha chegada, a verdade é que eu estreei bem timidamente. Sempre me achei bem pouco especial, comum, até mesmo um pouco inadequado – cabeção, cara vermelha e pé torto. Muito amado pela minha família, em especial pelas mulheres da minha vida que são minha mãe e minha avó, mas ainda assim, desde cedo, um desajeitado.

Porém, esse desconforto não me impediu de crescer com um largo sorriso no rosto e um brilho nos olhos. Em todas as minhas fotos de infância, o sorriso e os olhos mostravam uma certeza, a de que a vida é bela. Acho que uma das razões pelas quais eu consegui isso foi porque meu sonho, desde sempre, era o de me tornar um super-herói. Para vocês terem uma ideia, cheguei a tentar pular do 8º andar para me encontrar com o Homem-Aranha! Cresci assim, sonhando em subir pelas paredes e, ao mesmo tempo, me sentindo um completo estranho no ninho, me desafiando em competições enquanto em outros momentos tentava passar desapercebido.


E assim se passaram os anos da minha infância e adolescência. Até que um dia tive um sonho! Um sonho tão real e poderoso, tão resistente, que me acompanhou por muitos anos. Falo sonho porque, apesar do medo e da angústia, não consigo vê-lo como pesadelo. Eu sonhava que era perseguido por um homem. Os cenários mudavam, alguns personagens apareciam, outros sumiam, mas aquele homem estava lá, correndo atrás de mim e eu correndo dele. E o sonho era tão persistente que, mesmo quando eu acordava assustado no meio da noite, ao adormecer novamente, ele continuava do mesmo lugar onde parou, como se estivesse estado em pausa.


Essas noites me marcaram profundamente. Senti sem me dar conta que algo estava acontecendo em mim. Um movimento interno buscava um gesto, um riacho que queria desaguar em algum oceano.


Pouco tempo depois, talvez 1 ano após o início dos sonhos/pesadelos, descobri a dança. Na época eu cursava a faculdade de Direito, mas, com o passar dos dias ficou impossível conciliar os dois. Mais uma vez, senti sem me dar conta que meu caminho seguiria através da dança. E assim foi, para desespero de minha mãe, larguei a faculdade e falei para a família que ia dançar.


Quase 10 anos se passaram, e entre a dança, o estudo do corpo e do movimento, o autoconhecimento que dançar profissionalmente exigia e os pesadelos que não me largavam por nada, um dia algo aconteceu.


Em uma noite de sono, depois de algumas outras noites nas quais eu estive correndo daquela figura, senti um profundo cansaço e parei, eu havia desistido de fugir. Então, o homem de quem tentei escapar por todos esses anos, se aproximou e me olhou. E eu vi. Eu me vi. E então entendi o que já sabia em meu coração.


Aí se inicia minha jornada com o autoconhecimento através da dança. Neste momento da viagem, havia entendido o que antes eu apenas sentia. É por isso que estou onde estou, para me conhecer, para me descobrir. Foi quando mergulhei ainda mais fundo: aulas de balé, oficinas de clown, resgatei as artes marciais e segui dançando tango. Me dediquei a conduzir minha atenção a identificar qualquer indício de algo que pudesse me ajudar a descobrir mais sobre mim mesmo, seja em um gesto ou em um livro, em uma conversa ou uma música.


E eis me aqui...

É por isso que sou apaixonado pelo movimento. Para mim, movimento é vida, literalmente! E é por isso sou um artista do movimento, para seguir em movimento. Um movimento interno. Mas também para ensinar essa rota e acompanhar as pessoas que queiram entrar em contato com as suas maiores potências, que queiram se conhecer através do seu próprio corpo e desejem apreciar momento a momento tudo o que fazem.



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