Metodologia – Pilares do Aprendizado na Tangueria


Quais as grandes ideias que sustentam nossa missão de apresentar a essência do Tango Argentino com excelência para que cada aluno descubra a sua forma única de sentir e se expressar? Quais os faróis que guiam nossos alunos nessa desafiadora aventura de autoconhecimento, melhora da performance e descoberta da experiência da fruição? O que sustenta nosso propósito e nossos valores?

Curiosidade insaciável é uma das características mais impulsionadoras de processos de inovação e novas descobertas. Não à toa Leonardo Da Vinci, dotado de uma imensa fome por saber, ele é considerado como o principal representante do homem renascentista; cientista, matemático, engenheiro, inventor, anatomista, pintor, escultor, arquiteto, botânico, poeta e músico, curioso e sedento por conhecimento.


E podemos afirmar que um dos alimentos mais indispensáveis à curiosidade é a capacidade de observação. No entanto, para tal, necessitamos conhecer quais os canais de acesso ao mundo que dispomos e permitir que eles estejam desimpedidos para captar o máximo de informações possíveis. Todos nós conhecemos os cinco sentidos que nos permitem ouvir, ver, cheirar, tocar e saborear o mundo, mas também temos outros três sentidos que realmente fazem parte de nosso universo interno e que são extremamente importantes.


Um deles é chamado de sexto sentido e nos permite conhecer o interior do nosso corpo para que tenhamos acesso à intuição, ao nosso sentido do coração, à nossa intuição íntima sobre as coisas, aquela razão mais próxima a nossa pulsação vital, também conhecida como interocepção. O próximo sentido extra, chamado de sétimo sentido, é o que permite que nos tornemos especialistas na arquitetura dos nossos sentimentos, pensamentos, memórias e percepções, é através dele que temos acesso à nossa vida mental interior. O último sentido é chamado de sentido relacional e ao desenvolvê-lo tomamos consciência da importância de nossos relacionamentos com a família, com os amigos e nos tornamos parte da relação com todo o planeta. Sem desenvolver o oitavo sentido, corremos o risco de experimentar profundo isolamento e sentir que o planeta não é realmente nossa casa. Portanto, ao nos conectarmos com as pessoas e com o planeta, desenvolvemos o oitavo sentido e, usando todos esses sentidos, podemos nos tornar mais despertos ao que fazemos e a termos uma vida mais gratificante.


Eis então a construção do primeiro pilar de sustentação do nosso método, que consiste exatamente no treinamento para capturar a percepção viva, pulsante, no gerúndio, e que passa pela descoberta de um conhecimento que se apreende através do que vivenciamos de forma direta, e não através do intelecto. É um caminho que nos leva a descobrir que existe um tipo de conhecimento, pré-racional, que é sensorial.


Segundo um grande filósofo e pensador francês chamado Maurice Merleau-Ponty, esse envolvimento direto e pré-reflexivo com o mundo é sinônimo do que conhecemos como percepção. Ela corporifica ideias e conceitos e fortalece o humano na árdua tarefa de tomar decisões em contextos tão complexos como estar abraçado a outra pessoa em uma pista de dança.


Aqui apontamos nosso olhar para os próximos dois pilares fundamentais do nosso método. O segundo está representado pela ideia que “o outro não existe, o outro sou eu.” Mas o que, de fato, isso significa? Um crescente corpo de pesquisas está persuadindo os neurocientistas de que a proposta de Baruch Spinoza, no século XVII, captura melhor a totalidade de tensões com as quais os humanos crescem. “O esforço de viver de uma forma compartilhada, em acordo pacífico com os outros é uma extensão do esforço de autopreservação”. Essa ideia significa que, nós humanos, nascemos predispostos a nos preocuparmos com a forma como nos relacionamos uns com os outros e que nossa natureza colaborativa é o que determinou nossa evolução como espécie.


Possuímos um singular desejo em ler e compartilhar os sentimentos e preocupações de outros, uma constante busca por engajamento intersubjetivo e compreensão mútua, o que fornece a base para nos comportarmos de uma forma mais pró-social, que tem como objetivo principal não apenas compartilhar, mas estabelecer e manter redes sociais. Muito mais do que aprender uns com os outros, necessitamos uns dos outros para aprender.


Já o terceiro pilar do nosso método se baseia na ideia de que existe um mecanismo cujo processo emocional pode guiar ou influenciar o comportamento e, principalmente a tomada de decisão. As emoções são uma parte indispensável da nossa vida racional e, ao contrário do que propõe Descartes e mesmo Kant, ao afirmar que o raciocínio deve ser feito de uma forma pura dissociada das emoções, na verdade são as emoções que permitem o equilíbrio das nossas decisões.


Emoção e sentimento são coisas diferentes. A emoção é uma reação imediata e instintiva a um estímulo, é algo que mexe com você e que não envolve pensamento. Já o sentimento envolve um alto grau de componente cognitivo, de percepção e avaliação de algo. Emoção é reação enquanto sentimento é construção. As emoções ocorrem no teatro do corpo, os sentimentos ocorrem no teatro da mente.


Assim, os sentimentos, juntamente com as emoções que os originam, não são um luxo, atuam como guias internos e ajudam-nos a comunicar com os outros sinais que também os podem guiar. "Os sentimentos permitem-nos descortinar o corpo em plena agitação biológica. Se não fosse a possibilidade de sentir os estados do corpo, que estão inerentemente destinados a ser dolorosos ou aprazíveis, não haveria sofrimento ou felicidade, desejo ou misericórdia, tragédia ou glória na condição humana."


Mas como um raciocínio aparentemente normal pode ser perturbado por inflexões sutis enraizadas nas emoções? Por exemplo, é mais provável que um doente aceite de bom grado um determinado tratamento se lhe disserem que 90% das pessoas tratadas em casos semelhantes se encontram vivas ao fim de cinco anos do que se for informado de que 10% morreram. Embora o resultado seja precisamente o mesmo, é natural que os sentimentos que surgem associados à ideia de morte conduzam à rejeição de uma opção que seria aceita sob outra ótica.


Como nossas emoções interferem na comunicação, sobretudo corporal, que estabelecemos com alguém? É possível estar consciente de parte dessa influência de modo a afinar a nossa linguagem para sermos bem compreendidos e capazes de estabelecer uma relação com outra pessoa, considerando a complexidade de um encontro autêntico e dinâmico? Nós da Tangueria temos certeza de que a resposta é sim.


O quarto pilar do nosso método é o que Mihaly Csikszentmihalyi (1990) definiu pela primeira vez na literatura como “flow” (fluxo) ou experiência ótima. Segundo ele, a experiência ótima corresponde a um estado de consciência no qual a pessoa que o experimenta está absolutamente envolvida numa atividade, sentindo-se bem pelo simples fato de a desempenhar, e perdendo, inclusive, a noção da passagem do tempo.


Csikszentmihalyi defende que a experiência de flow se caracteriza por um balanço entre desafio e competência, fusão entre ação e consciência, concentração na tarefa, perda de autoconsciência, transformação do sentido do tempo, clareza de objetivos, percepção de controle, feedback rigoroso e experiência autotélica. A dimensão da fusão entre ação e consciência está relacionada com o fato de, neste estado de consciência, o indivíduo estar absolutamente envolvido no momento presente e naquilo que está a fazer. Este estado de absorção é congruente com uma total concentração na tarefa e perda da autoconsciência, sendo que o indivíduo está de tal forma focado na tarefa que não se preocupa com mais nada, nem mesmo com o seu próprio desempenho na mesma.


Com efeito, a absorção na tarefa é tal que a percepção da passagem do tempo é distorcida, parecendo ao indivíduo que este passa mais depressa do que na realidade acontece. Mais ainda, os objetivos são claros para o executor e este percebe-se como tendo controle sobre aquilo que está a fazer e sobre os resultados que daí advenham, obtendo feedback rigoroso sobre eles, o que significa que o indivíduo sabe, com clareza e em tempo real, se e em que medida está a realizar bem a tarefa. Por fim, todos estes aspectos fazem com que experienciar estados de flow corresponda a uma experiência autotélica, ou seja, a uma experiência que é prazerosa e recompensadora em si mesma, e durante a qual os indivíduos não estão focados nas possíveis consequências do cumprimento da tarefa, mas sim no processo em si.


Assim concluímos a construção da estrutura da metodologia de aprendizado da Tangueria Luciano Bastos. Resumidamente, os 4 pilares do nosso método são:


  1. A captura da percepção viva por meio de treino da atenção;

  2. A consciência de nossa natureza colaborativa e de que necessitamos uns dos outros para aprender;

  3. O uso das emoções e sentimentos como guias internos que nos ajudam a nos comunicar uns com os outros; e

  4. A descoberta dos elementos produtores da experiência ótima, como o balanço entre desafio e competência, fusão entre ação e consciência, concentração na tarefa, feedback rigoroso na execução de uma atividade que é prazerosa em si mesma.


Quais as camadas mais profundas desses elementos? Os pontos de flexão de cada um desses pilares entre si e como eles se complementam? Ahhh... isso é tema de um próximo texto! Até lá, sigam dançando tango!

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