Que siga o baile!

O COMPLEXO É A REALIDADE. O COMPLICADO, NOSSAS PROJEÇÕES. ENTÃO, QUE SIGA O BAILE!


Mandar um foguete para a lua é complicado, mas educar um filho é complexo. Tocar um concerto é complicado, já reger uma orquestra é complexo. O complexo é a realidade, o complicado, as nossas projeções. Mas já parou para pensar sobre qual a diferença entre o complicado e o complexo?


O domínio do complicado é previsível, é o domínio da análise de especialistas, da técnica, do treino e da repetição. Já o domínio do complexo é conduzido pelo imprevisível, é o domínio da necessidade de permanente adaptação e gerenciamento. Uma palavra que eu gosto muito é atenção. O complexo exige permanente atenção.


Um exemplo pessoal de como isso acontece na prática é o de que, no início da minha experiência como professor e bailarino, eu me restringia a estar no domínio do complicado. Buscava ensinar e executar os movimentos corretos, para isso eu treinava e repetia cada gesto 500 vezes. Ensinava da mesma maneira, o importante era saber onde colocar o pé, como girar o corpo, como mover o braço e meu principal objetivo era descomplicar o tango, mostrar que dançar poderia ser muito mais fácil do que parecia.


Com o tempo, gradualmente passei a me aventurar mais pelo domínio do complexo, e comecei a acompanhá-los na descoberta de tudo o que os afastava do momento presente (tensões, cobranças, ansiedades, medos). Descobri ainda que essa abordagem os ajudava a dançar melhor, além de os dar mais autonomia. Sem estarem ameaçados pelas expectativas do futuro, nem carregando os pesos do passado, eles descobriram o agora, descobriram que há mais do que prazer envolvido e que temos uma capacidade de sensibilizar-nos muito maior do que normalmente utilizamos. Adentrar no universo da complexidade significou, para mim, despertar um olhar curioso para o meu próprio movimento, para a relação entre pensamentos, emoções e gestos e, para o encontro com o outro. Não estou dizendo que devamos nos abster de trabalhar a técnica, não é isso. Mas também não podemos nos limitar a ela.


Considerando que complexo, do latim complexus, é o que está tecido junto, uma maneira de ilustrar a complexidade na dança a dois é observar que a dimensão do complicado pode abranger, individualmente, cada um dos elementos descritos abaixo, no entanto, quando em relação, todos eles formam uma rede extremamente complexa.


Existe o eu, que representa o treino e a educação corporal, a melhora da coordenação motora, da capacidade respiratória, da flexibilidade e do alongamento, da repetição da técnica.


O outro já acrescenta complexidade à equação, o outro é sempre um mistério. Somente a partir do treino da atenção ao que acontece com o meu par e da consciência que tenho dos efeitos que meus movimentos provocam na pessoa que está comigo é que se torna possível permanecer em relação. Se quero acelerar meu movimento é necessário haver comunicação, é preciso construir pontes. Será que meu toque está forte demais? Fraco demais? Ao mesmo tempo, quando observado apenas superficialmente, o outro também pode ser compreendido de forma prática e técnica, apenas complicada.


A música é percebida e apreendida pelo treino da nossa sensibilidade auditiva, com o reconhecimento dos instrumentos, do ritmo, das frases musicais, das paisagens musicais e identificação das orquestras e todo esse processo pode ser bem racional. Agora, manter-se em relação com as emoções que ela transmite e a humana necessidade de expressão e busca de sentido é complexo. Entender que o silêncio, muitas vezes, diz mais do que o som e que um não existe sem o outro é complexo.


Os movimentos são incorporados através da repetição e do treino, são as sequências de “passos”, é a coreografia, mas quando passam a ser as palavras e frases da nossa história escrita no ar, quando esses gestos se tornam, simultaneamente, tempo e espaço, mergulhamos no domínio do complexo.


O espaço representa o meio pelo qual nos movemos e envolve a direção dos deslocamentos, a orientação espacial. Seu domínio é do complicado, mas quando acrescentamos texturas e densidades diferentes aos nossos gestos, entramos no universo do complexo. É nele que a intenção cria um campo magnético capaz de preencher tanto o espaço externo como também nosso espaço interno, o intra-articular, o entre ossos, entre músculos e fibras, entre órgãos. É esse campo que nos dá suporte na abertura de novos espaços, nas caminhadas para o desconhecido.


No domínio do complicado, os outros casais nos exigem o conhecimento dos códigos do salão de dança e nossa habilidade em circular pela pista sem choques e empurrões. No entanto, a sensação de unidade em meio a muitos e o navegar com tantos diferentes está no domínio do complexo.


E por último, mas não menos importante, a expressão, nossa disposição em desnudarmos e de expressarmos o nosso porquê. A complexidade em expressar-se está, a meu ver, na impossibilidade de ocultarmos nossas sombras, nossa vulnerabilidade. Toda forma de expressão que não abrace as nossas fraquezas é frágil, e é justamente na conciliação entre nossas imperfeições e forças que está a coragem em assumir-se inteiro e complexo.


Podemos dizer ainda que, além de permitir-nos relacionamentos, a complexidade é também produto de outros dois processos, o da diferenciação e o de integração. Diferenciação é o processo que me separa dos demais, que determina a formação da minha individualidade, minha percepção do eu, mas também significa reconhecer o outro em sua própria individualidade. A integração, por sua vez, é o processo oposto, é o que me conecta aos demais, que dissolve barreiras, que une e fusiona, é conhecer o que o outro pensa apenas pelo olhar, é confiar.


Algo curioso no entendimento desses dois processos é que na diferenciação, nesse movimento de separação e individualização, se faz necessário a presença do outro. É o que um grande mestre da arte da palhaçaria diz: “O outro não existe. O outro sou eu.” A minha única possibilidade de autoconsciência se dá através da presença do outro. É através da observação e reconhecimento das intenções e movimentos das outras pessoas que descobrimos a nós mesmos. Inclusive, diversos estudos e artigos, como os da antropóloga Sarah Hrdy, demostraram que não foi a nossa capacidade cognitiva que nos diferenciou das outras espécies de sapiens. Segundo a autora, o fator principal para o enorme desenvolvimento da espécie humana foi a nossa capacidade de conviver colaborativamente. Ao mesmo tempo, na integração, nesse processo de fusão com outras pessoas e ideias, eu, em minha individualidade, não posso esquecer de mim mesmo, correndo o risco de me aniquilar sob o peso das opiniões e necessidades alheias. A complexidade está exatamente no encontro do equilíbrio entre diferenciação e integração.


A questão é que não basta saber de tudo isso, é preciso repetir continuamente esse permitir-se estar no domínio da complexidade, como os bailarinos repetem sua coreografia e os músicos ensaiam com suas partituras. Isso significa criar espaço para a surpresa, não se chantageando com as expectativas do futuro e nem com as cobranças do passado, e para isso, é necessário treinar nossa capacidade de estar atento ao que está acontecendo agora. É essa habilidade que nos possibilita administrar a complexidade dos eventos, desafios e dilemas da vida.


É se tornando cada vez mais complexo que se pode crescer, e, no entanto, de um modo geral, a complexidade é vista como negativa. Fala-se em pessoas complexadas ou algo “complexo demais para minha cabeça”. Mas a verdade é que, quando diante de uma paixão, os desafios da execução de uma tarefa deixam de ser negativos, passam a motivar. Apaixonados pela dança e pelo movimento, inúmeros bailarinos simplesmente não percebem a passagem do tempo quando em busca daquele gesto capaz de revelar ao mundo as cores de uma vida interior em ebulição. É essa paixão, não a dos gregos, esse algo maior pelo qual viver que Viktor Frankl chamou de sentido. A busca por sentido na existência é o que permanece, mesmo quando tudo ao redor muda. Talvez, a dificuldade em entender que é possível extrair crescimento da complexidade também esteja no fato de sermos educados para ter uma solução para tudo, respostas rápidas e soluções prontas na ponta da língua, e é comum que o “aprender” tenha passado a ser uma imposição externa quando a vida escolar teve início. O custo de não nos envolvermos com o complexo é o custo de não ter uma paixão. Ele pode (e normalmente produz!) experiências mecânicas e sem sentido, que não alimentam a alma, não deixam marcas.


Deixar-se envolver pela complexidade exige voluntariedade, o estabelecimento de metas desafiadoras e o envolvimento pleno com a tarefa, livre de distrações. Dessa combinação de elementos é que se torna possível experimentar uma sensação, que não é apenas de prazer, mas de fruição, resultado de um movimento adiante que comprometer-se com uma tarefa desafiadora nos exige. Aí então é quando surge o sentimento de que crescemos, de que nos tornamos mais complexos.


Uma amiga comentou comigo que já estão inventando um novo acrônimo para o mundo pós-pandemia, o mundo BANI, que é britlle (frágil), anxious (ansioso), non-linear (não linear) e incromprehensible (incompreensível). Após a conversa, ela me disse que um olhar para o profundo e complexo que pode ser dançar tango ajuda a curar os dois primeiros e enfrentar os dois últimos. É uma experiência de extrema abertura de sensibilidade e do nosso campo de percepção, onde a nossa leitura do mundo se amplia enormemente, onde nossas vidas passam em um instante e o mundo dança. Como ela, generosamente compartilhou comigo: “Outras sabedorias já fazem isso há muitos anos, como as artes marciais, mas pela dança é uma descoberta de muita beleza.” Que siga o baile!

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