Tango: percepção e aprendizado

No começo Deus criou os céus e a terra. A terra era um vazio, sem nenhum ser vivente, e estava coberta por um mar profundo. A escuridão cobria o mar, e o Espírito de Deus se movia por cima da água.

Então Deus disse:

— Que haja luz!

E a luz começou a existir. Deus viu que a luz era boa e a separou da escuridão.

Gênesis (1,1)

Algumas ideias são explosivas, e contemplá-las, mesmo que por um breve instante, pode desencadear um definitivo processo de mudança. Elas nos exigem movimento, uma revisão de crenças, certezas e um certo grau de coragem para que se permita a vivência da vulnerabilidade de novos recomeços. São pensamentos que trazem em si a possibilidade de novas vivências e que são capazes de levar, quem os souber acolher, a lugares ainda não visitados.


“Deus viu que a luz era boa e a separou da escuridão”, mas somente após tê-la criado. Independentemente de sua crença, ou descrença, esse é um pensamento que tem um incrível potencial transformador. Podemos até mesmo afirmar que é revolucionário considerar a possibilidade de um ato que não tenha sido exposto ao escrutínio da razão antes de sua realização. Em uma cultura onde as pessoas são estimuladas constantemente à racionalização, e constroem suas vidas em torno desta importante, mas também parcial faculdade, abrir-se a novas formas de relação com a própria experiência de vida é urgente e necessário. Mas quais seriam essas nossas outras fontes? Como viver, mover-se e aprender, se não pela razão?


Encontramos uma pista na relação do homem paleolítico com a arte. Você sabia que os pintores do paleolítico eram capazes de encontrar a olho nu delicados matizes que o homem moderno só consegue descobrir com a ajuda de complicados instrumentos científicos? Para ele, a produção artística fazia parte de um ritual mágico que tinha como objetivo a obtenção de alimento, e quanto mais fiel à realidade, mais poderoso seria o feitiço. Tal capacidade, entretanto, já tinha desaparecido no neolítico, quando a percepção direta de sensações foi substituída, em certa medida, pela inflexibilidade e estabilidade do conceitualismo (HAUSER, A. 2000. Pág.3). Ao que parece, a arte paleolítica atingiu, sem qualquer obstáculo, a unidade de percepção visual só conseguida pela arte moderna após um século de controvérsias e busca por ruptura com os padrões. Para o homem da Pedra Lascada, estar plenamente imerso no momento presente era uma questão de sobrevivência.


Profundamente inspirado por Edmund Husserl (1859-1938) e sua fenomenologia, Maurice Merleau-Ponty (1908-1961), filósofo francês, também nos indica um caminho. Ele afirmava que existe um tipo de conhecimento, pré-racional, que é sensorial, e aprofundou a ideia de que nosso primeiro acesso ao conhecimento se dá através do que vivenciamos de forma direta, e não através do intelecto. Segundo ele, é pela percepção que temos o nosso primeiro contato imediato com o mundo e o nosso corpo não é apenas uma coisa, mas uma condição permanente da experiência.

A fenomenologia é a tentativa de escapar das construções teóricas da ciência e da filosofia, através das quais tentamos conquistar um controle intelectual sobre nossa existência, e retornar à simples descrição dos nossos pré-reflexivos envolvimentos com o mundo (Matthews, Eric. 2006. Pág.21). A palavra que Merleau-Ponty utiliza para definir esse envolvimento direto e pré-reflexivo é percepção. Isso significa dizer que só se pode atribuir sentido à uma ideia abstrata referenciando-a às nossas próprias experiências prévias e diretas, ou seja, à nossa percepção. Pode-se definir percepção como um envolvimento prático com as coisas e com o mundo. Perceber algo não é apenas ter uma ideia sobre esse algo, mas se relacionar com ele de alguma forma. Viver no mundo vem primeiro, conhecê-lo depois.

Complicado? Imagine-se em uma milonga (baile de tango) quando começa a tocar uma tanda de Lucio Demare com Raúl Berón. Seus olhos, já em busca de um par, sem sucesso percorrem o salão de um lado a outro. O tango “Una emoción” segue inspirando alguns casais que já parecem estar em outra dimensão. Um pensamento passa pela sua cabeça, “Vou perder essa música.” Com todos os sentidos alertas e plenamente presente, de repente, você pára, respira fundo, e, como por arte de magia, olha para a sua direita, um pouco atrás do seu campo de visão. Neste instante há o encontro com outros olhos já fixos em você, momento ao qual se segue o convite e a entrada na pista. Os corações aceleram suas batidas, mas logo se sintonizam com o “compás” da música, os corpos se aproximam ainda com um certo estranhamento e curiosidade, o outro sempre será um mistério a ser desvendado. O perfume fica mais intenso com a maior cercania dos corpos, o toque se revela e se intensifica no abraço, seguem os primeiros passos na pista. Depois de alguns “compases”, o volume da música fica mais alto, os contornos das pessoas que estão ao redor são borrados e o brilho de quem está em seus braços parece estar em alto relevo. A música acabou em um piscar de olhos, no entanto, parece ter durado uma eternidade. Essa descrição soa familiar? A boa notícia é que experiências deste tipo não necessariamente precisam ser fruto do acaso ou de uma milagrosa combinação de fatores externos. Elas são perfeitamente passíveis de reprodução e podemos aprender como entrar neste estado. Mas o que significa na prática entrar neste estado? Csikszentmihalyi (1990) definiu pela primeira vez na literatura o termo “flow” (fluxo) ou experiência ótima, como um estado de consciência no qual a pessoa que o experiencia está absolutamente envolvida numa atividade, sentindo-se bem pelo simples fato de a desempenhar, e perdendo, inclusive, a noção da passagem do tempo. Ele referiu ainda que para alcançar o estado de flow é necessário que o nível de desafio da tarefa e o nível de competência do seu executor sejam percepcionados como equilibrados. Segundo o autor, quando o nível de desafio é percebido como elevado e o nível de competência como baixo, o indivíduo entra num estado de ansiedade; e, pelo contrário, quando o nível de desafio é percebido como baixo e o de competência como elevado, o indivíduo entra num estado de aborrecimento. Mais ainda, quando o desafio da tarefa e o nível de competência são percebidos como baixos, o indivíduo entra num estado de apatia e, por oposição, quando ambos são percebidos como elevados, o indivíduo entra num estado de flow. Csikszentmihalyi defende que a experiência de flow se caracteriza por um balanço entre desafio e competência, fusão entre ação e consciência, concentração na tarefa, perda de autoconsciência, transformação do sentido do tempo, clareza de objetivos, percepção de controle, feedback rigoroso e experiência autotélica. A dimensão da fusão entre ação e consciência está relacionada com o fato de, neste estado de consciência, o indivíduo estar absolutamente envolvido no momento presente e naquilo que está a fazer. Este estado de absorção é congruente com uma total concentração na tarefa e perda da autoconsciência, sendo que o indivíduo está de tal forma focado na tarefa que não se preocupa com mais nada, nem mesmo com o seu próprio desempenho na mesma. Com efeito, a absorção na tarefa é tal que a percepção da passagem do tempo é distorcida, parecendo ao indivíduo que este passa mais depressa do que na realidade acontece. Mais ainda, os objetivos são claros para o executor e este percebe-se como tendo controle sobre aquilo que está a fazer e sobre os resultados que daí advenham, obtendo feedback rigoroso sobre os mesmos, o que significa que o indivíduo sabe, com clareza e em tempo real, se e em que medida está a realizar bem a tarefa. Por fim, todos estes aspectos fazem com que experienciar estados de flow corresponda a uma experiência autotélica, ou seja, a uma experiência que é prazerosa e recompensadora em si mesma, e durante a qual os indivíduos não estão focados nas possíveis consequências do cumprimento da tarefa, mas sim no processo em si. Vimos, portanto, que flow é o estado mental no qual uma pessoa que realiza alguma atividade está totalmente imersa, em um sentimento de foco energizado, envolvimento total e prazer no processo da atividade. Também pode-se afirmar que é uma das variáveis com maior poder preditivo sobre o desempenho em qualquer tarefa que se queira realizar, e que para alcançar tal estado é necessário criar condições tanto internas (como por exemplo uma total absorção no momento presente) como externas (balanço entre desafio e competência). Mais importante do que estar no ritmo é entrar no fluxo.

A experiência sensível é um processo vital, assim como a procriação, a respiração ou o crescimento (Merleau-Ponty, 1999, pág.31). Em um estudo conduzido pela Universidade de Iowa (Bechara et al, 1994), jovens e adultos foram submetidos a um experimento que simulou situações da vida real de tomada de decisão em condições de incerteza, relativamente às consequências, ou seja, quanto à recompensa ou punição. O Iowa Gambling Task é um jogo em que o sujeito tem de escolher cartas de quatro baralhos diferentes (A, B, C, D) e o objetivo é ganhar o máximo de dinheiro possível ou evitar perder, sendo atribuído ao sujeito um crédito inicial de 2.000 dólares. Sempre que o indivíduo seleciona uma carta recebe uma recompensa monetária, mas em algumas cartas a recompensa é seguida de perda variável de dinheiro. A conclusão dos pesquisadores é que os sujeitos normais decidem acertadamente antes de conhecerem a estratégia vantajosa, guiados pelos marcadores somáticos que são mecanismos do nosso cérebro de conduzir, de forma emocional, nossas tomadas de decisão. Eles são as associações feitas entre uma imagem, uma emoção e um sentimento corporal que antecipam um processo cognitivo mais refinado, são as conversas subconscientes que acontecem em nossa mente, antes da tomada de decisão consciente. Por exemplo, em uma aula de tango, das opções de movimento mostradas pelo professor, quando você decide iniciar a sequência com um passo lateral e não um passo atrás, a sua tomada de decisão pode parecer ter sido racional, no entanto, muito provavelmente ela foi precedida emocional e inconscientemente por “Tem um casal atrás de mim”, “Estamos muito perto da parede” e “Será que está certo?”.

Esse é o popular, “ouça o seu coração”. Inclusive, uma expressão comum no tango é que “bailamos de corazón a corazón”, em uma clara referência a esse saber corpóreo que precisa ser aprendido e afinado. Eis a fenda mágica por onde se pode experimentar momentos com textura própria. “O sentir é esta comunicação vital com o mundo que o torna presente para nós como lugar familiar de nossa vida. É a ele que o objeto percebido e o sujeito que percebe devem sua espessura” (Merleau-Ponty. 1999, pág.84). Chegamos então ao ponto no qual os conceitos de percepção e aprendizado se tocam, esta fusão entre ação e consciência, à qual se referiu Csikszentmihalyi e que é um dos pré-requisitos para se vivenciar um estado de flow. Pesquisas científicas (SIQUEIRA, Mirlene Maria Matias; PADOVAM, Valquíria Aparecida Rossi. 2008) apontam alguns dos pilares da produção do bem-estar e da descoberta deste estado de experiência ótima. Dentre eles estão o treinamento da atenção focada, o treinamento da consciência aberta e o treinamento na compaixão, na atenção generosa e de interconexão. Em uma sala de aula, criar um ambiente onde haja o cultivo e estímulo à vivência dessas habilidades pode representar o grande impulsionador do processo do aluno. Tal processo inicia-se com a sensibilização para o momento presente através do cultivo da atenção focada, e do fortalecimento do que se pode chamar de “estrutura de calma”. “La scultura si fa per via di levare”, expressão que sinaliza o caminho de que é necessário retirar as sobras, assim como no aprendizado, deve-se retirar da mente, aqui entendida como toda a experiência subjetiva de um indivíduo (sua história, memórias, crenças, cultura, emoções e seu corpo), os excessos de preocupações, tensões, cobranças e ansiedades. O gesto que o pássaro faz com as asas para voar é o de empurrar o ar para trás e o aluno precisa aprender a se livrar da bagagem excedente antes de empreender uma nova jornada. Como Michelangelo que, ao esculpir o seu herói David, o vislumbrou em cada detalhe dentro de um bloco de mármore, o professor precisa ser capaz de ver o tesouro que cada aluno traz consigo e acompanhá-lo nessa descoberta. O corpo é o meio para se ter um mundo e é por ele que começamos. No entanto, uma andorinha só não faz verão e sabe-se hoje que o caminho mais direto para a autoconsciência, e talvez o único possível, é o da descoberta do outro. Desde tenra idade e sem nenhum treinamento especial, humanos tendem a se identificar com as dificuldades dos outros indivíduos e, sem serem solicitados, voluntariamente se dispõem a ajudar e compartilhar, mesmo com estranhos. Somos equipados com um sensor de cooperação e é através dele que desenvolvemos a habilidade de autoconsciência. É a empatia como caminho para a descoberta de si. Pesquisas comprovam que foram a capacidade de interpretar as intenções e sinais em expressões faciais, essa permanente busca por entender o que os outros estão pensando e de empatizar e se preocupar com suas experiências e objetivos, que ajudaram os seres humanos a serem muito mais hábeis em cooperar com as pessoas ao redor (Hrdy,Sarah. 2009. Pág.2) e aptos a sobreviver aos desafios da existência. Todo o nosso aparato neuromuscular está preparado para aprender com os indivíduos ao nosso redor, observando-os. E este é outro pilar sobre o qual sustento a caminhada do aprender, eu sou o seu espelho, você o meu. Assim, após a conquista desta estrutura de calma “per via di levare”, da sintonia com o outro e do cultivo da empatia através do treinamento da atenção plena, o desafio é poder estar neste estado de conexão, seja para aprender ou performar. Mas para permitir-se estar conectado ao outro, compartilhando a sua escuta, suas emoções e alimentando o diálogo em ressonância, também é necessário construir e fortalecer um sistema de alerta que indique o momento da “desafinação”. É graças a esse sistema que, ao longo do processo, se constrói uma estrutura de autonomia e independência no aluno, o qual passa a não mais depender completamente do professor para se autorregular. É quando as tensões e preocupações, direi aqui, “subterrâneas”, sobem espontaneamente através dos músculos e gestos, das profundezas do inconsciente à superfície da consciência. “O corpo não traslada, mas muito sabe, adivinha se não entende.” (Rosa. 1988. Pág.125). A ênfase está em incluir no aprendizado do praticante o seu corpo emocional, toda a sua experiência subjetiva, pois é a partir dela que as sensações percebidas produzem um gesto e um movimento autêntico e espesso, para utilizar o termo escolhido por Merleau-Ponty. É o sentir que investe a qualidade do aprendizado de um valor vital, bem como a consistência da apreensão da experiência. A presença dessa tríade - atenção plena, sintonia empática e estar ressonância - no processo de aprendizagem conduz à vivência de um estado de confiança e de prazer. Encarná-la significa que viver, mover-se - e aprender - vêm antes do pensamento consciente sobre a vida e sobre o próprio ato de aprender.

O que se busca é um processo de aprendizagem que facilite a aproximação ao conhecimento e habilite ao aluno realizar sua capacidade interna de sentir, que resgate o saber corpóreo e a intuição e o ajude a encontrar a sua própria forma de expressão. Dançar é conectar os movimentos internos das emoções com os gestos. O alfabeto da dança é o de se mover no caos. Pouco a pouco os movimentos se intensificam e, com o tempo, todo mundo se surpreende. Portanto, dance primeiro, pense depois, e celebre durante toda a jornada.



Celebrar este mundo Celebrar este mundo adivinhando a incurável leveza, a inabalável certeza, do esplendor interminável da luz de Deus, aurora ruminando para sempre a quietude do imutável. Somos reflexos dessa luz, um bando de flamingos ardendo, misturando-se ao sol nascente, ao inimaginável incêndio indescritível, todo asas, todo luz… Somos feitos como brasas abrindo o voo, somos como o voo dos flamingos em brasa ao oriente.. E nunca há de apagar-se aquele ardente sol perfeito que neles se espelhou. Bruno Tolentino

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